Há uns anos, apostaria que o conceito de fast-food não vingaria em Portugal. Isto baseado apenas no senso-comum, na mera constatação de que, sendo este um país de grandes almoçaradas de cabrito no forno e com um restaurante de bairro a cada esquina, jamais trocaríamos lulas de escabeche por pizza de plástico. Ensina a sociologia que o pior dos erros é basearmos teorias no senso-comum. Vergado pela realidade, constato, isso sim, a desmultiplicação de MacBurger’s e Pizza Kings por todas as aldeias, vales e vielas do país, como se se parissem uns aos outros durante a noite à imagem daqueles filmes de terror em que numa esconsa cave uma malfadada personagem ejecta clones de si própria. E aí os temos. Lá se foram os filetes da Mamuda, a vitelinha da Adega Triunfante, os quartilhos de vinho da pipa da Tasca Do Cego. Menus em inglês invadiram o quotidiano: Super Bizz Whop Chicken, Double Cheese Check Burger, King Size Steak To Go, e outros inefáveis títulos que as empregadas detrás do balcão, de pala enfiada até ao sobrolho, nos atiram em catadupa com uma mestria de estágio bem ensaiado durante meses. E, a recibos verdes também nós, lá fingimos entender os códigos, pedindo naturalmente o nome que corresponda ao menor preço e não ao maior número de sílabas. Tanto nos pode cair no tabuleiro vermelho oleoso uma coxa de frango frita, como um pedaço redondo de massa com queijo e anchovas. Tudo com sabor de fábrica, bem entendido. Um papel impresso a fazer de naperon relembra-nos contudo que temos ainda direito a uma Cola Light gratuita se coleccionarmos os pontos de dez Funky Meals ali ingeridas. Toca a somar num cartãozinho, mais apetitoso que o conduto, todas as promoções que, tão generosamente, os senhores do conselho de administração daquela empresa de comes e bebes rápidos nos oferecem.
Não desapareceu o conceito de bem-comer em Portugal. A prová-lo, as panças senhoris das velhas gerações nunca rendidas a estas americanices, os lanches ajantarados de sopa da pedra, prato de peixe e de carne, leite- creme e toucinho-do-céu, cafés e bagaço. Tudo isto regado a bom tinto porque a brigada da BT hoje está na rotunda contrária ao caminho de casa. Ao domingo, enchem-se de famílias inteiras os restaurantes beira-de-estrada de norte a sul do país. Entram ao meio-dia e ali acampam até quase ao sol desaparecer, num ritmo só acompanhado pelo rosar das faces, o desapertar do botão superior das calças e as piadas que se vão apimentando com a bênção das esposas tornadas cúmplices nestes momentos. Correm as crianças pelo salão, e, se estiver a chover, fazem da casa de banho esconderijo batendo portas e gritando no eco da tijoleira branca. Há sempre uma televisão que ajuda à berraria, um jogo de futebol, um cantor de fato branco e bailarinas em soutien, ou o Malato, coitado, empoleirado na prateleira com um naperon a sério, a tentar arrancar a concorrentes da Baixa-da-Banheira uma estorieta que os relaxe para o concurso. As empregadas, geralmente filhas do dono do estabelecimento, vestidas de enfermeiras rústicas em batas axadrezadas, lá cirandam com as travessas de inox de onde sobressaem nacos de chispe, couves pendentes e fumegam batatas. Num rodopio que há-de durar até ao tilt final da caixa, lá fintam a criançada e os beliscões dos clientes já a esta hora movidos a meias-garrafas de vinho da casa.
Por isso já se vê: ou a montante ou a jusante, não escasseiam em Portugal locais onde possamos ter um debate sério com uns rissóis à chefe ou com um arroz de cherne para dois. Falta-nos, claro está, falar sobre essa novíssima tendência, também ela importada das urbes americanas, agora em versão high-life. São os ‘Vistorantes’: um cruzamento entre um sítio para nos embevecermos com o prato e com a vista. Não a vista do antigamente: uma paisagem, um rio, um mar pela tardinha, mas sim uma ex-manequim reformada, um jogador da bola que já pode sair à noite, quem sabe um político à procura de cenário e de um projecto para o país. Reza a etiqueta que deveríamos fazer reserva por telefone. Atende-nos um labirinto de opções: ‘para jantar, marque 1 | para almoço sozinho, marque 2 | para comer bem, marque o número doutro sítio qualquer…’. À boa maneira Tuguesa, avançamos sem essas modernices e não reservamos. Na entrada, uma Vanessa Soraia, diplomada em Marketing e Comunicação, pergunta-nos, do alto da sua mini-saia, matéria na qual é doutorada, se fizemos reserva. A medo, balbuciamos que não. Ela, do púlpito com o logo do Vistorante na frente tipo Departamento de Estado, fulmina-nos com o olhar sobranceiro de quem está perante uma casta menor que não faz a menor ideia das burocracias que agora são precisas para marcar uma mesa. Consulta o seu livrinho que percorre com a unha de gel. O candeeiro tipo biblioteca já viu melhores dias e melhores livros. Volta ao ataque: ‘É uma maçada… sem reserva não sei o que poderei fazer…’. E chama pelo head-set de microfone e auricular o Assessor de Relações Públicas para que desembargue a situação embaraçosa. Este chega entre incensos e penteados acompanhado de um segurança. Ambos de intercom e frases tipo: ‘Escuto… Roger.. Delta Bravo Tango. Sim, Mesa nove. Entendido. Over and Out’. Lá vamos conduzidos entre tal sinalética já antecipando uma refeição intimidante e militar, mas que, continuamos a acreditar, nos sacie a verdadeira razão pela qual ali fomos: fome. Na ânsia de cruzarmos olhares com alguma dessas personagens das revistas floreadas, constatamos que a casa está vazia. Ou o “Jet-Set” não sabe ainda fazer reservas, ou errámos na noite que escolhemos para sair. Se calhar devíamos ter vindo ontem à festa de anos da relações públicas, como estava escarrapachado no site donde tirámos o endereço. Enganámo-nos provavelmente. Este aspecto lúgubre em nada tem a ver com o moreno, os decotes, os dentes e os make-ups que visitámos na net. Resta a comida. Talvez se safe. Mas cedo vem a desilusão. O Maître deve estar de folga, e chega-nos meio peixe seco com uma alga muito na moda. E com isto nos vamos. Esfomeados, procuraremos uma roulote de bifanas. Será que é preciso reserva?
Pedro Abrunhosa
Porto, 16 de Março de 2010.
