Momento é por definição o instante irrepetível.
A música é pois, ainda que de forma estranhamente paradoxal,
a arte de tornar perene o momento, estruturada que é no conceito
de tempo e da repetição encantatória deste. Assim
construí eu este disco. Uma maneira de tornar eternos os meus instantes,
de os lançar como nuvens invisíveis sobre o céu carregado
das melodias que me ensombram. Aqui habitam todos os fantasmas, as obsessões,
as loucuras possíveis e todas as outras que não cheguei
ainda a pronunciar. Das palavras faço canções que
me fintam e se perdem por entre a harmonia seca de um piano qualquer.
São as esquinas da cidade que me seduzem, mulheres vestidas de
maquilhagem carregada, vultos escorregadios que tecem a noite como pássaros
silenciosos, madrugadas encantadas entre as pegadas de um areal molhado
pela chuva imprecisa. Os meus momentos são banais e por isso os
canto. Esta vontade que tenho de tornar o real numa canção
que repito até que outra canção me surja do sonho.
Elas são o mundo a pulsar a cada piscar de olhos, o lento crescer
de um lírio num deserto de cetim e cimento, as letras esbatidas
de um jornal que ninguém lerá. Este é o meu Momento.
Assim se cumprirão nas vossas mãos os meus instantes irrepetíveis.
Pedro Abrunhosa
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